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sábado, 15 de junho de 2013

Protesto

Existe uma lei universal de causa e efeito,
simples de entender.
Tudo o que você faz gera uma resposta,
mesmo que muitas vezes silenciosa.
Sua fala, seu rompante, seu abraço ou distância
reverberam longe, já que você não é uma ilha
e absolutamente não está sozinho nesse mundo.
Eu, que aqui escrevo
para desintoxicar meu sistema nervoso
das loucuras e absurdos que vejo por aí,
causo certamente um efeito em você.
A forma negligente, desrespeitosa e doente
como o nosso país vem sendo conduzido
causou, não era estranho de se esperar,
protestos que já são notícia no mundo todo.
O aumento na tarifa de ônibus
e o gasto exorbitante com a Copa
foram apenas a gota d´água.
O copo já estava cheio faz tempo -
derramando corrupção, violência, saúde em coma,
falta básica e essencial de educação.
Os jovens saíram do Facebook e foram às ruas
compartilhar, ao vivo e em cores,
sua revolta e indignação.
Alguns souberam fazer isso, outros não.
Uns fizeram bonito, outros fizeram estrago.
Referindo-me aos primeiros,
como povo brasileiro de um estado democrático,
eles tem - no mínimo - esse direito.
Mas a gota d´água desaguou em gotas de sangue,
senhores governantes.
Sua tropa de choque chocou um país inteiro
com suas bombas de gás lacrimogênio,
tiros de borracha, sprays de pimenta
borrifados até em cachorro.
Voltando à lei universal de causa e efeito,
tivemos aí um efeito devastador.
Desumano. Destruidor.
Temos aí um clássico exemplo
de quando o efeito é absurdamente maior
do que a causa.
Isso não acontece só nas ruas,
mas também nos casamentos,
nas relações afetivas e familiares.
Quando a reação, o castigo, o grito
vem de forma absolutamente desproporcional,
piorando tudo.
Silenciar assim a sua gente, senhores governantes?
O que poderia ser uma corrente pra frente acaba
virando corrente de chumbo voltando pra trás.
Década de 60, para ser mais exata.
Ditadura, tortura, abuso abismal de poder.
De efeito em efeito, vamos fazendo um país.
E um país é feito de gente, só para lembrar.
Gente que acorda cedo pra trabalhar,
gente que faz seu serviço direito,
gente que transforma luto em luta todos os dias.
Gente que oferece flores à tropa de choque,
causando como efeito
um tanto de assombro e esperança,
chamado urgente de paz e mudança.

domingo, 9 de junho de 2013

Ode ao Dia dos Namorados


A cena é linda, eu diria perfeita.
O namorado pára o carro em uma rua tranquila,
venda os olhos da namorada
e coloca uma música que fala de amor.
De repente a rua é tomada por casais de namorados
passeando de mãos dadas, sorrindo enamorados
entre beijos, abraços, flores e balões.
(Armação criativamente inventada,
famoso flashmob dos dias de hoje.)
Os olhos outrora vendados não acreditam no que vêem.
Choram de emoção, pupila dilata, fala falta.
O clímax chega na forma de uma caixinha preta
de veludo que delicadamente se abre,
mostrando duas alianças de ouro.
- Quer se casar comigo?
(...)
- NÃO.
(...)
Não?!?
A cena é inesperada, eu diria imperfeita.
Imperfeita como a vida é, afinal.
Plena de encontros e desencontros,
amores correspondidos e doídos,
porções inteiras de sim e não.
É com a recusa de um pedido do casamento
em pleno 12 de junho que começa o filme
"Odeio o Dia dos Namorados".
O nome é curioso. Chama atenção
pelo forte antagonismo do verbo utilizado
em relação a uma data tão cheia de amor pra dar.
Aí você torce o nariz. Esvazia-se de toda
e qualquer pretensão já prevendo
uma tola comédia romântica cheia de clichês.
Lêdo engano.
"Odeio o Dia dos Namorados" é leve,
engraçado, ficcional e também muito real.
A mulher que não aceitou se casar
foi um dia a menina que botava fones de ouvido
para não ouvir a briga dos pais.
A publicitária viciada em trabalho
viveu um dia abstinência de amor
nas suas decepções de adolescente.
Um acidente de carro pára tudo, movimenta tudo,
dá a ela a oportunidade de voltar no tempo.
Pausa providencial, Divina Providência
dando uma explicação a tudo.
Depois de tanta "viagem", nasce o slogan
do bombom Sonho de Valsa: "Alimente o seu amor".
Como ex-redatora publicitária, adorei.
Era o slogan que eu gostaria de ter criado.
Como psicóloga, ouvinte frequente das trincas
que muitas vezes esfarelam as relações afetivas, validei.
O amor - a despeito de todos os traumas,
vazios e antagonismos - tem fome e sede,
necessidade constante de cuidado e nutrição
para não correr risco de inanição.
Deve ser por isso que os restaurantes
fazem fila no Dia dos Namorados.
Oficialmente os casais ficam ávidos
de rua, lua, vinho, ninho,
famintos que estão de amor.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Perolices edificantes


Na volta da escola, vou entrando no mundinho da Bella,
perguntando como foi seu dia:
- Então, minha flor, o que você aprendeu hoje?
- Aprendi a ter dúvidas!
É. Dá-lhe Sócrates, "só sei que nada sei".
................................................

Comentário do Léo no final do domingo:
- Mãe, você sabia que a vovó bebe?
- É, de vez em quando ela toma uma cervejinha...
Por que a surpresa, meu filho?
- É que ela não é adulta, é idosa...
.................................................

Bella empolgada para ir ao sítio:
- Ai, eu tô tão feliz!
- Por que, Bebella?
- Por que eu vou ver minha cachorrinha, a Teca.
Ela ficou ENGRAVIDADA!
.................................................

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Engano


Por engano dois bebês são trocados
logo após o nascimento.
Por engano, susto, pânico eles se misturam no refúgio,
nascidos que foram em meio ao bombardeio.
O menino israelense ganha o colo da mãe palestina.
O menino palestino ganha o colo da mãe judia.
Os meninos crescem, a verdade aparece
com a força de uma granada.
Apesar das diferenças tão abissais e gritantes,
os dois filhos se encontram.
As duas famílias se reúnem para jantar.
Os olhares se cruzam.
Os lábios entoam uma canção familiar.
As raízes se ampliam.
As fotografias falam.
A tocante ficção de "O Filho do Outro"
é vida real na história de algumas vidas.
Por engano se cometem erros,
desastres, equívocos sem fim.
Por pertencimento rompem-se barreiras,
desfazem-se mal-entendidos,
se desmancha um muro inteiro.
A sensação de pertencer a uma família, uma pátria,
uma barriga ou a um time de futebol
fica desde sempre registrada
na alma, no sangue, na carne.
Impressão digital, profundamente emocional,
que guerra nenhuma jamais apaga.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Diante do muro


É de pedra, emoção, tijolo e terra o meu lamento.
Pelas mulheres que não podem rezar.
Pelos homens que desaprenderam a amar.
Pelas crianças esquecidas.
Pelo adoecer repentino.
Pelos encontros tão doídos.
Pelo diálogo surdo.
Pela polêmica vazia.
Congresso de azia.
Pelo grito mudo.
Vida no escuro.
Rua sem lua.
Pelo amor de Deus, que lê os bilhetes do mundo.
É de letra, luz, rascunho e rima o meu intento.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Rotina


"Um, dois, feijão com arroz."
Fez onde, esse curso de robô?
Roubou seu tempo, economizou conversa jogada fora,
suas estrelas deixou de contar.
Toca o despertador. Começa o noticiário.
Árido o dia que termina assim.
Tão no automático.
No imediático, se é que existe palavra assim.
Brinca de parar o tempo, menino.
Tanta coisa pra fazer, alma trancada no sótão.
Sai da catatonia, fura a monotonia
como surfista quebrando onda.
Vai morrer de amor mas não morre na praia.
Sai do padrão, faz careta pra escuridão,
acende os olhos para não perder de vista
a paixão que há tempos te ronda.
Compra logo uma lanterna roxa e sai por aí.
Vai bater ponto na vida.
Faz serenata, essa coisa tão antiga.
Vai contar causos de pescaria.
Tricotar com a avó.
Ou teclar, bater um blá, sei lá.
Acende uma lareira e junta os amigos.
Dá férias pro chefe e prepara panqueca de abacate
com pimenta rosa.
Mas troca essa voz robótica,
esse jeito previsível de fazer tudo igual sempre.
Desde sempre é que não foi. Foi?
Desrobotiza. Miraculiza. Externiza.
Xis. Sorria.
Você não está sendo filmado.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Mães de carne e osso


Sim, existem mães perfeitas.
Insistentemente magras, endeusadas,
santas, heroínas, mitificadas.
Consagradas ao posto de mulher-maravilha ou elástico,
horário nobre no paraíso.
Tão compactadamente cheias de pó compacto,
photoshop, barrigas de plástico.
Abra o jornal e lá estão elas:
impecavelmente perfeitas nos anúncios publicitários,
vendendo de perfume a geladeira para o Dia das Mães.
Desligo a TV e me olho no espelho.
Cansaço e alegria.
Labuta e correria.
Colo e coragem.
Amor e ancoragem.
Reza e anjo da guarda.
Não sei mais quantas linhas de expressão.
Cada uma um significado,
uma noite perdida, uma vida inteira ganha.
Ô. Presente que não se encontra
em loja nenhuma do mundo.
Luz que não se acende com mil camêras,
mas dentro dessa mãe que é de carne e osso.
Sim. Se você não sabia, mãe é de carne e osso.
Erra e tropeça também.
Borra a maquiagem, quebra o salto,
se perde nos seus achados,
agenda reuniões diárias com Deus.
Ainda bem que é de carne e osso.
É dessa combinação que nascem
os abraços mais apertados,
amorosos, verdadeiros, inteiros,
cheios de afeto e de uma ligação única,
que propaganda nenhuma jamais conseguiu inventar.