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terça-feira, 20 de maio de 2014

Último suspiro


Impressionante o tanto de voltas que o mundo dá. Voltas e mais voltas, se quer saber.
Coisas que você imagina já bem definidas, resolvidas, vem à tona muitas vezes de um jeito inexplicável. Inacreditável. Seja no amor. No trabalho. Nas relações mais espinhentas e delicadas. Nas amizades ditas infalíveis. No famoso "e foram felizes para sempre". No mais taxativo dos nãos. No mais convidativo dos sins. Nada é fixo, imutável, a vida segue e quase tudo se transforma.
Muito tempo se passou desde o fatídico e doloroso "The End" do post anterior. Eu nem ia voltar mais neste assunto, c'est fini, já havia dado por perdida a história daqueles dois, mas aí veio o destino para dizer quem é que está no comando. Ah, as voltas que o mundo dá.
Marina seguiu sua vida, como tinha que ser. Bonita e inteligente como era, não demorou a despertar olhares, sorrisos, afetos. Arrumou um namorado também bonito, bom partido, dez anos mais velho.
Diego voltou de Paris com a bagagem cheia de conhecimento, experiência, talento. Alçou vôos lindos na carreira e se tornou um doutor consultor. Nada de namorada, apenas rolos, ficantes, encontros casuais, nada além disso.
Nunca mais se falaram, Diego e Marina. As famílias de cada um quase morriam de tristeza (as mães nem se fala) de ver aqueles dois separados, tamanha era a torcida e o envolvimento desde cedo, desde sempre.
E foi aí que um folheto de propaganda distribuído no sinal mudou tudo. Luz amarela - pense, luz vermelha - pare, luz verde - siga. Simples assim, e foi numa dessas paradas que enfiaram pela janela do carro do Diego um anúncio cheinho de alianças de noivado. Uma mais bonita que a outra. Seria um sinal?
Numa fração de segundos, ele pensou em Marina. No que foi. No que poderia ter sido. No que já não mais era.
E foi bem naquela hora do rush, voltando pra casa depois de um dia cheio de trabalho, que Diego mudou a rota e a história. Em menos de vinte minutos estava dentro da joalheria, comprando o par de alianças mais valioso da sua vida.
Atrevido aquele menino. Já em casa, namorando a caixinha preta de veludo, pegou o telefone e ligou para Marina. Disse, sem muito rodeio, que precisava conversar com ela. Marcaram para daqui a três dias (haja ansiedade), num restaurante perto de um shopping bem familiar.
Mais uma vez não houve rodeio. Nem mesmo aquela função fática que um dia você aprendeu na aula de português, tipo: "Como tem chovido, hein?..." Direto ao ponto, sem rodeio nem subterfúgios, atrevido esse menino. Quase matando Marina de susto, tirou a caixinha do bolso e fez "na lata" o pedido convencional, esperado por tantas mulheres, já não esperado por Marina:
- Quer se casar comigo?
Coitada da moça. Empalideceu de susto, emudeceu, chegou em casa aos prantos, deixando a mãe atônita e o ex-namorado com a expectativa de uma resposta, um dia.
Nada desse dia chegar. Nem que sim nem que não, a posição de Marina era um mistério. A família de Diego não falava noutro assunto, a polêmica se instaurava nos almoços de domingo, até bolão chegaram a fazer.
- Ih, Diego, desiste, ela não quer mais nada com você.
- Ih, conheço as mulheres: hora da vingança. Esquece, Diego.
- Calma, gente, é claro que ela vai aceitar, deixa de ser pessimista!
- É. Se ela não falou na chincha que não, é porque você mexeu com ela. Prepara o casório que lá vem notícia boa!
E assim, de especulação em especulação, de sim em não, o tempo foi passando. Até que um dia, uma mensagem no whatsup:
- Diego, não entenda meu silêncio como um não, apenas preciso pensar mais, esfriar a cabeça e acalmar o coração...
Compreensivo e sereno, certo de que aquela mulher nasceu pra ser sua, Diego esperou. Esperou. Esperou. Esperou.
Até que um dia foi tomar um chope com um tio querido e ganhou de quebra o empurrãozão que faltava:
- Vai ficar esperando até quando, velho? Vai lá agora, chega junto, leva ela pra jantar e volta só amanhã depois que o sol raiar. Bora.
- Mas tio, são quase dez horas da noite, estou sem carro e ela já deve estar de pijama.
- Toma a chave do carro, liga pra ela e fala que você está na porta.
Simples assim. Louco, ousado, atrevido, apaixonado, convicto assim.
Quer saber? Foi a noite mais linda da vida daqueles dois. Graças a Deus, ao destino, ao amor, ao cosmos, ao tio parceiro, o idílio voltou com luz, certeza, poesia e encanto.
A última notícia que tive é que compraram um apartamento e vão se casar. Bem-casados, bem-felizes, bem-sintonizados com a força que as coisas têm quando têm que acontecer.
E é assim, com essa emoção toda, que o fim vira começo. Que o último suspiro vira apenas o primeiro de muitos outros. Longos "ai ais" de vida, de amor que ressuscita como milagre, fazendo renascer tudo outra vez.
Ah, as voltas lindas que o mundo dá.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Namoro de longa data


Pegou o primeiro voo, cruzou o oceano, aterrissou cidadã do mundo.
Na bagagem, nada muito além do básico: luvas, algumas mudas, camisola, cachecol, perfume, saudade, bombom de licor, livro de cabeceira.
Do aeroporto à estação de trem, 20 minutos. Da estação ao destino tão esperado, trem-bala, que é pra chegar mais rápido.
Coração acelerado, cabeça a mil por hora, imaginação fértil delimitando cada cena. Divinamente encenada a sua temporada de música, vinho, poema e outono em Salzburg. Última parada, Estação dos Alpes, tocata de Mozart, taquicardia. Ardia de emoção, sorria por dentro, derramava alegria.
Olhando pela janela, procurava ansiosa. Encontro marcado há tempos, melhor abraço do mundo, acontecimento importante.
Ela, pianista. Ele, violoncelista.
Ela, silêncio. Ele, palavra.
Ela, mergulho. Ele, asa-delta.
Ela, carta. Ele, selo.
Ela, vertigem. Ele, conselho.
Ela, varanda. Ele, rede.
Ela, sina. Ele, sinfonia.
Ela, namorada. Ele, namorado.
Tão diferentes. Tão iguais.
Tão juntos. Tão duo. Tão sempre.
Passado, futuro, presente.
Casados há mais de 20 anos.

sábado, 28 de abril de 2012

Decisão importante

Semana passada dei com alegria uma palestra na Paróquia Nossa Senhora Rainha, no Belvedere, cujo tema era: "Relacionamento Conjugal. Fortalecendo os laços de amor através de atitudes e posturas construtivas."
Enquanto não dava a hora de começar, tomei um café na companhia de uma das atenciosas organizadoras do evento, Cristina Chiari, e fiquei vendo as pessoas chegarem aos poucos. Casais de namorados, noivos, casados; novos, de meia idade, de cabelo e sobrancelha brancos. Algumas poucas mulheres sozinhas, jovens em turma e, para minha supresa, algumas adolescentes (futuras casadoiras) cheias de brilho nos olhos.
Olhando o salão lotado - mais de duzentas pessoas, de perfis tão variados - fiquei pensando que coisa boa é ver que as pessoas ainda se mobilizam - e ao mesmo tempo se movimentam - para falar de amor. O tema está em voga, graças a Deus.
Mãos entrelaçadas, olhares atentos, braços acolhendo ombros. Foi nesse clima de juntidade, cumplicidade e abertura que a plateia me ouviu falar sobre casamento. Os sonhos, a rotina, as mudanças, os filhos, o envelhecimento conjunto.
Em determinado momento, perguntei a eles qual o segredo. O que faz alguns casais comemorarem bôdas de ouro, prata, diamante, confirmando o quanto o amor é possível? E foi logo ali, na fila do gargarejo, de um casal que já acumulou muito ouro, que escutei uma das respostas mais lindas: o segredo é a decisão de amar.
Perfeito. Não basta amar, é preciso que se tome essa decisão. E isso transcende a própria decisão de casar, subir ao altar, jogar o buquê ou partir o bolo. Significa, acima de tudo, a decisão de continuar amando, apesar de. Apesar das diferenças que são muitas, dos problemas que são grandes, dos inúmeros tropeços que surgem no caminho e que muitas vezes levam ao adoecimento do amor. A decisão de amar transcende também todas os outras respostas-clichê que já tenham sido ditas sobre o assunto: paciência, amor, perdão, tolerância (que, com certeza, também são segredos que todo mundo deveria saber e pôr em prática).
Depois da reposta do Ildeu e da Maria Lúcia, recebida com aplausos da plateia, minha missão estava praticamente cumprida.
Se os casais não saíram de lá sob chuva de arroz, com certeza saíram refletindo sobre esse arroz que completa o feijão todos os dias, temperado com amor, poesia, encantamento e aquele que talvez seja um dos ingredientes mais importantes: sabedoria.