sábado, 28 de dezembro de 2013

Frozen


Típico e delicioso programa em família depois de um típico e delicioso almocinho japonês: "Frozen, uma aventura congelante", mais uma superprodução da Disney.
Pra gente pequena, os olhinhos por trás dos óculos 3D se fixam no afeto entre duas irmãs, paisagens geladas, brincadeiras de infância, poderes especiais e o velho duelo entre o bem e o mal.
Pra gente grande, dá pra ir um pouco mais longe. Do coração congelado à depressão paralisante, petrificante, que manda fechar as portas do castelo e te isola do mundo: até da irmã "ensolarada", tão cheia de luz e vida. Depressão que cria abismos, lanças pontiagudas de gelo e assustadores monstros de neve. No filme, poder especial; na vida ao vivo e em cores, doença, falta de serotonina, química cerebral, mundo em preto e branco.
Em Frozen o inverno é constante, dilacerante, pra sempre. Já imaginou viver eternamente no cinza, no frio, no Alasca?
Esta é a sensação que muita gente tem quando está vivendo um problema grave. Seja de cabeça, coração, dinheiro, profissão, o que for, a sensação é que a imagem estará para sempre congelada. Mas aí é só lembrar a última vez que você chorou, sofreu, doeu, ficou trancado no quarto.
Passou, não passou? Pode até ter deixado sequelas, mas a vida continuou, isto é certo. Até a neve se transforma, aí está o sol que não me deixa mentir.
Pra quebrar o gelo e fabricar o riso, o ponto alto do filme: um divertido boneco de neve falante, que ora perde a cabeça, ora desloca a cenoura do nariz para o meio da testa, mais parecendo um unicórnio, mas sem nunca perder o bom humor.
Pra aquecer o coração, é preciso olhar para ele. Ouvir suas batidas, calma e amorosamente, como bem ensinou a professora de ioga do post anterior. Depois de ouvir, encher de amor, essa palavra tão batida e linda.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O dia em que a terapeuta chorou. Ou: emoção de uma crônica autorizada


Toda quinta ela anunciava sua chegada com uma batida inconfundível na porta: toc-toc, toc-toc, toc-toc. Chegava carregada de luz, cansaço, pasta executiva, esperança, celular já no jeito para plugar no tomada e vontade de mudar o mundo - o seu mundo.
Queria emagrecer, queria engravidar, queria deixar a vida de executiva pilhada no último grau e ficar bem zen.
Seu sonho quase foi parar no Guinness Book: tudo o que aquela mulher queria era deixar o posto de empresária e virar professora de ioga para crianças. Simples assim.
E para provar que sonho só faz sentido quando vira realidade um dia, lá foi ela à luta. À doce labuta de trocar o salto alto pelos pés descalços, o tailleur pela malha confortável, os contratempos empresariais pelo tempo vivido com respiro, alegria e sentido - muito sentido.
A ioga veio na vida dela como um remédio, literalmente falando. A executiva se deu alta do psiquiatra, jogou fora o antidepressivo, começou a frequentar templos budistas, mergulhou em livros e cursos de ioga, respirou aliviada. Ommm... Ommm...
De tão bem que estava, se deu alta da terapia também. Esqueceu lá no consultório a sombrinha ("Freud explica"), voltaria para pegar depois. Voltou: seis meses depois, só para matar a saudade e trocar algumas ideias, ainda sem emprego mas em busca de um trabalho que deixasse a alma dela repleta, leve. Ganha-pão recheado de realização, não poderia ser diferente.
Coincidentemente, a professora de ioga da minha filha (um desses privilégios deliciosos do horário integral) estava saindo de licença-maternidade. Não pestanejei em indicar a minha querida ex-executiva para ocupar a vaga. Ocupou. Preencheu de alegria e sentido cada segundo da sua vida. E das crianças que deram a sorte de tê-la como professora, tão cheia de leveza e alegria, ensinando sentimentos bons como paz, alegria, harmonia. (Como o mundo anda precisando disso.)
Há algumas semanas foi a festinha de encerramento da escola com apresentação para os pais. Balé, música, inglês e ioga. Fui ansiosa para assistir a Bella, já controlando a respiração para ver também a minha querida ex-executiva na ativa, fazendo o que mais ama na vida.
Qual não foi minha frustração quando vi uma outra professora estendendo as esteiras coloridas no chão, preparando o ambiente para envolver pais e filhos em uma relaxante aulinha de ioga. "Será que aconteceu alguma coisa?", pensei. "Será que ela foi mandada embora ou decidiu sair? A Bella não me disse nada...".
Qual não foi minha alegria quando me dei conta do engano; não era outra professora, mas sim a minha querida ex-executiva, a própria,de carne e osso, só que dezessete quilos mais magra, cabelo até a cintura, corpo de bailarina, brilho nos olhos, energia de quem finalmente se encontrou.
Qual não foi minha emoção quando ela pediu para assentarmos em posição de meditação, mãos em "formato de olhos de corujinha", e apenas deixar ouvir o coração bater.
Ah, minha querida ex-executiva... Logo você, que por tanto tempo ouviu o coração bater pesado, cansado... Que lindeza de transformação compartilhei neste dia com você. Deitada na esteira, ao lado da minha filha, viramos sol, vento, nuvem, barco à vela. Chorei de emoção pela linda travessia que começou bem diante de mim, entre xícaras de cappuccino, caixas de lenço e almofadas macias.
Que Deus abençoe a sua caminhada, querida professora de ioga. E que nessa beirinha de Ano Novo a sua história possa inspirar muita gente a acreditar na força que um sonho tem quando precisa acontecer.
Na verdade, não tem muito mistério, aprendi com você. A gente só precisa respirar, aquietar a mente e ouvir de que jeito o coração anda batendo.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013