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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Engano


Por engano dois bebês são trocados
logo após o nascimento.
Por engano, susto, pânico eles se misturam no refúgio,
nascidos que foram em meio ao bombardeio.
O menino israelense ganha o colo da mãe palestina.
O menino palestino ganha o colo da mãe judia.
Os meninos crescem, a verdade aparece
com a força de uma granada.
Apesar das diferenças tão abissais e gritantes,
os dois filhos se encontram.
As duas famílias se reúnem para jantar.
Os olhares se cruzam.
Os lábios entoam uma canção familiar.
As raízes se ampliam.
As fotografias falam.
A tocante ficção de "O Filho do Outro"
é vida real na história de algumas vidas.
Por engano se cometem erros,
desastres, equívocos sem fim.
Por pertencimento rompem-se barreiras,
desfazem-se mal-entendidos,
se desmancha um muro inteiro.
A sensação de pertencer a uma família, uma pátria,
uma barriga ou a um time de futebol
fica desde sempre registrada
na alma, no sangue, na carne.
Impressão digital, profundamente emocional,
que guerra nenhuma jamais apaga.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Recomendações de mãe

Cada fase uma fase, um momento diferente.
Eu me despedindo do Léo ao deixá-lo na escola:
Filho, "Deus te abençoe", boa prova, não se esqueça de escrever respostas completas, não confunda fotossíntese com polinização. E lembre-se: "green", grama; "yellow", sol. Capricha na prova de inglês!...
Com a Bella, a recomendação mais importante:
Tchau, minha flor, brinca bastante!
Nem precisei terminar a frase e ela saiu correndo em direção à Sophia e ao Ilan, direto pra casa de boneca:
- Mamãe, a gente vai brincar de Smurfs! Eu vou ser a Smurfete!
Ah, meus filhos. E assim vou indo trabalhar com um sol dentro de mim, a alma em paz e o coração cheio. Hoje vocês se dividem entre clorofilas, agentes polinizadores, Smurfs e Smurfetes. Amanhã serão contas a pagar, casamento para cuidar, trabalho para amar, filhos para encher de beijos na porta da escola.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Obrigação

Cresci ouvindo isso da minha mãe: "primeiro a obrigação, depois a devoção".
Aprendi direitinho, tintim por tintim, letra por letra.
Tinha também a outra versão de rima: "primeiro o dever, depois o lazer".
Ah, mães. Hoje sei bem o que é isso, conheço bem essa toada, e tento passar pros meus filhos de tudo quanto é jeito. Tá impregnado, tá na pele, tá virando quase um mantra: obrigação, ão... ão... ão... ão...
Só que ao invés de relaxar, põe é pilha. Claro. "Um dois, feijão com arroz." Bora bora, vamos aproveitar o tempo, cuidar do que é prioridade para aproveitar depois a felicidade do tempo livre. (E quem disse que tempo ocupado não é felicidade? Ô, se é.)
Olha eu aqui, burlando a regrinha básica que a minha mãe me ensinou. Enquanto você passeia pelo blog, tem uma pilha de livros pra eu ler e artigos pra escrever. Obrigação da pesada, estou até parecendo o coelho da Alice no País das Maravilhas: "É tarde! É tarde, é tarde, é tarde!"
E eu, mistura de coelho e gente, quase estou ouvindo a minha orientadora dizer : "primeiro a obrigação, depois..."
(Ela é que não sabe o tanto que essa devoção aqui
me enche de inspiração.)
Fui. "É tarde, é tarde, é tarde!".

sexta-feira, 29 de julho de 2011

problemas e PROBLEMAS

"Cada um com o seu problema", diz um chavão conhecido. Cada um com a sua cruz, dizem os mais espiritualizados. Já a minha bisavó costumava dizer: "que esse seja o seu maior problema..."
Problema é o que não falta. É o que nos faz correr atrás, sofrer, aprender um bocado na vida. Problemas internos, externos, de todos os tipos.
Cada um tem o seu pra enfrentar, e isso já é o bastante. Subjetiva é a dor e angústia que cada um carrega no peito.
Tô falando tudo isso pra chegar no Chico e o filme que veio completar as comemorações do seu centenário e fechar com chave de ouro as minhas breves férias no friozinho lá do sítio.
"As mães de Chico Xavier" vieram pra confirmar a saúde dos meus canais lacrimais. Estão supimpas, graças a Deus.
Meus olhos se encantaram com o que viram - a simplicidade do enredo, da trama, da trilha se misturando a cenas tão cheias de emoção. A beleza reside mesmo na simplicidade.
Sei que cada problema é um problema e dor não se compara. Mas se você quiser ver o seu problema diminuir de tamanho por um instante - aproximadamente por duas horas - é só ligar o DVD e colocar "As mães de Chico" pra rodar.
Às mães (e também aos pais, claro) que já viveram o abismo de imensa dor que é perder um filho, meus mais profundos sentimentos e a esperança de que o Chico continue escrevendo cartas lá de cima.