domingo, 15 de agosto de 2010

Não tem preço

Aprendi a gostar de cachorro com a minha irmã Tatiana. Veterinária de mão cheia, especialista em ultrassonografia, acabou me dando três sobrinhos de estimação: Pipoca, Nick e Nina.
Apesar de paparicar igualmente os três, confesso minha predileção pela Pipoca: uma Bassê preta  com olhos de gente, desses olhos de ternura e lealdade que matam a gente.
O Léo - bobo que não é -  também já percebeu isso, e ontem soltou mais uma das suas. Foi dormir na casa da minha mãe, junto com a "Ta Tati" e os três cachorros, e me ligou de lá todo satisfeito:
- Mãe, vamos comprar a Pipoca? A Ta Tati vende pra gente!...
- É mesmo, Léo?! Por quanto?
Ele repassou a pergunta para a tia, que estava por perto:
- Quanto mesmo, Ta Tati?
- Não tem preço, Léo...
- Oba! É de graça, mãe!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A vida continua

Um dia, enfim, ela resolveu amar de novo. Juntou os cacos, molhou a terra, transformou rascunho em poesia.
Fazia sol lá fora. Fazia sol lá dentro. A música já não era desafinada. O choro já não doía tanto. 
Abriu  a porta, estranhou a claridade, esperou o trem passar. Deu bom dia ao vizinho, riu sozinha, deu o ar da graça.
Há muito tempo não se sentia assim, tão inteira.
Limpa, sem poeira, sem eira nem beira.
Decretado o fim do luto, o recomeço da vida, a continuidade de sua existência.
E veio flor da terra. Emoção da poesia. Dança da música. Passageiro do trem. Vida do luto.

domingo, 8 de agosto de 2010

Ele é o cara (metade)

Ontem eu passei uma tarde agradável na Praça da Liberdade, participando de uma gravação para o MGTV (http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1314691-7823-DIA+DOS+PAIS+DEVE+SERVIR+PARA+COMEMORAR+A+PRESENCA+DELES+NA+VIDA+DOS+FILHOS,00.html. ) O tema? Dia dos Pais. O enfoque? A cumplicidade entre pais e filhos.
Como diz o velho ditado, "não basta ser pai. Tem que participar." E aí a repórter queria saber se essa participação vem aumentando nos últimos tempos. Se a cumplicidade hoje é maior. Se essa presença é importante, entre outras tantas perguntas.
Foi bom ouvir, nas minhas próprias respostas, a constatação de que sim, essa participação aumentou. O pai de hoje (sem excluir os de ontem, que também faziam por onde) troca fraldas, dá banho, acorda de madrugada. A boa notícia é que isso vem ocorrendo não por imposição, muito menos regra. É claro que os homens têm percebido uma necessidade de ajudar as mulheres na criação dos filhos. (Elas, de cuidadoras, passaram a exercer também o papel de provedoras. Acordam cedo e vão trabalhar fora, pegando no batente feito gente grande.) Mas o provedor oficial passou a sentir, acima de tudo, uma demanda de prover também os cuidados essenciais. E faz isso com gosto, com afeto, com a emoção de zelar por um pedaço seu. O filho precisa desse afeto. O filho pede esse afeto. Não é porque ficou nove meses na barriga da mãe e mamou no seu peito que a presença paterna será menos importante. Você, como filho(a), sabe disso:  é a parte inteira de duas metades.
Eu espero que você tenha tido um Feliz Dia dos Pais. Regado a beijos, abraços, café na cama, cartões apaixonados, família reunida, panelada de frango e cantoria. Tem quem diga que este é apenas um dia comercial. Eu prefiro dizer que é o dia oficial de dizer "eu te amo" para aquela metade essencial que presenteou você com a vida.

PS: Se o seu Dia dos Pais foi regado a saudade, ainda assim você terá prestado sua homenagem. O amor transforma distância em encontro, ausência em presença, separação em abraço.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Presente

Apesar de já ter trocado de empregada uma centena de vezes (ô carma difícil, sô), dei a sorte de encontrar dois anjos que praticamente viraram parte da família: a Selma (Selminha, "Titia"), que ficou comigo oito anos e teve que voltar pra roça; e a Celma, com C, que veio pra quebrar o galho e acabou plantando um jardim inteiro. Foi babá da Bella, virou nossa passadeira e duas vezes por semana é recebida com o maior carinho do mundo.
Ontem o Léo soltou essa com ela:
- Celma, você nunca - NUNCA - precisa me dar um presente.
- Não, Léo? Mas por quê?
- Porque você já é o meu presente...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Adole-scente

Um dia os filhos crescem. Resolvem dar seus rolés pelo mundo. Jogam fora seus relógios quando têm hora para chegar. Reinventam a roda. Confrontam os pais. Jorram hormônios. Comem demais. Comem de menos. Vazam. Ficam. Pegam. Enxergam espinhas no espelho. Perdem o rumo. Andam em bandos. Debandam. Trancam-se no quarto. Passam no vestibular. Sofrem com suas escolhas. Arrumam as malas. Nova Zelândia, Paris, Sabará. Sonhos. Beijos. Chicletes. Sexo, drogas, rock and roll. Aula de inglês, francês, espanhol. Música no talo. Indefinição. Nem criança nem adulto: adolescente. Que sente falta. Que sente raiva.  Que sente medo. Que sente prazer. Que sente angústia, cólica, dor de dente. Adole-scente.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O som que vem do amor

Antes mesmo de eu nascer, a música já fazia parte da minha vida.  As primeiras contrações da minha mãe começaram em um concerto de Chopin, tendo meus avós maternos como testemunhas dessa emoção. Foi o meu jeito de aplaudir, de pedir pra nascer.
Fui estudar piano, influenciada pela lembrança da minha querida avó Bella. Conheci o amor através das sonatas de Schumann. Chorei com "Jesus alegria dos homens". Embalei os meus filhos com a poesia de Mozart.
Troquei o piano por esse teclado aqui.  Minha professora virou cunhada, madrinha, fada-madrinha.
Semana passada fui assisti-la em um concerto comemorativo dos 200 anos de Chopin e Schumann. Dessa vez não pedi pra nascer. Agradeci por viver, por presentear minha alma com o piano de Rosiane Lemos e o violoncelo de Kayami Satomi. Eu que amo a escuta desde sempre, me emocionei com o diálogo harmonioso, tocante desses dois instrumentos, desses dois talentos. Escutei o amor - esse amor que é falado, compartilhado, melodiosamente suplicado.
Até se casar com ela, Schumann viveu por Clara um amor proibido - declarado nas suas cartas e na composição das Cenas Infantis. Os nomes dados a estas pequenas peças traduzem um muito dessa história de amor: "Jogo da cabra-cega", "Desejo de criança", "Completamente feliz", "Grande acontecimento", "Quase demasiado sério", "O poeta fala".
Sim, meu caro Schumann. O poeta fala, ama, sofre, canta e encanta. A gente escuta e por vezes responde.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Fim de férias

Desarrumar as malas.
Abrir as cartas.
Arrumar a casa.
Fazer unha. Sacolão. Açougue. Supermercado.
Pilates. Hidro. Orçamento do armário.
Consertar o ferro de passar roupa.
Programar o despertador.
Buscar o edredon.
Preparar as aulas.
Botar a cabeça pra funcionar.
Trabalhar, trabalhar, trabalhar.
Fazer valer. Pôr sentido.
Abraçar a rotina.
Programar as próximas férias.