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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O dia em que a terapeuta chorou. Ou: emoção de uma crônica autorizada


Toda quinta ela anunciava sua chegada com uma batida inconfundível na porta: toc-toc, toc-toc, toc-toc. Chegava carregada de luz, cansaço, pasta executiva, esperança, celular já no jeito para plugar no tomada e vontade de mudar o mundo - o seu mundo.
Queria emagrecer, queria engravidar, queria deixar a vida de executiva pilhada no último grau e ficar bem zen.
Seu sonho quase foi parar no Guinness Book: tudo o que aquela mulher queria era deixar o posto de empresária e virar professora de ioga para crianças. Simples assim.
E para provar que sonho só faz sentido quando vira realidade um dia, lá foi ela à luta. À doce labuta de trocar o salto alto pelos pés descalços, o tailleur pela malha confortável, os contratempos empresariais pelo tempo vivido com respiro, alegria e sentido - muito sentido.
A ioga veio na vida dela como um remédio, literalmente falando. A executiva se deu alta do psiquiatra, jogou fora o antidepressivo, começou a frequentar templos budistas, mergulhou em livros e cursos de ioga, respirou aliviada. Ommm... Ommm...
De tão bem que estava, se deu alta da terapia também. Esqueceu lá no consultório a sombrinha ("Freud explica"), voltaria para pegar depois. Voltou: seis meses depois, só para matar a saudade e trocar algumas ideias, ainda sem emprego mas em busca de um trabalho que deixasse a alma dela repleta, leve. Ganha-pão recheado de realização, não poderia ser diferente.
Coincidentemente, a professora de ioga da minha filha (um desses privilégios deliciosos do horário integral) estava saindo de licença-maternidade. Não pestanejei em indicar a minha querida ex-executiva para ocupar a vaga. Ocupou. Preencheu de alegria e sentido cada segundo da sua vida. E das crianças que deram a sorte de tê-la como professora, tão cheia de leveza e alegria, ensinando sentimentos bons como paz, alegria, harmonia. (Como o mundo anda precisando disso.)
Há algumas semanas foi a festinha de encerramento da escola com apresentação para os pais. Balé, música, inglês e ioga. Fui ansiosa para assistir a Bella, já controlando a respiração para ver também a minha querida ex-executiva na ativa, fazendo o que mais ama na vida.
Qual não foi minha frustração quando vi uma outra professora estendendo as esteiras coloridas no chão, preparando o ambiente para envolver pais e filhos em uma relaxante aulinha de ioga. "Será que aconteceu alguma coisa?", pensei. "Será que ela foi mandada embora ou decidiu sair? A Bella não me disse nada...".
Qual não foi minha alegria quando me dei conta do engano; não era outra professora, mas sim a minha querida ex-executiva, a própria,de carne e osso, só que dezessete quilos mais magra, cabelo até a cintura, corpo de bailarina, brilho nos olhos, energia de quem finalmente se encontrou.
Qual não foi minha emoção quando ela pediu para assentarmos em posição de meditação, mãos em "formato de olhos de corujinha", e apenas deixar ouvir o coração bater.
Ah, minha querida ex-executiva... Logo você, que por tanto tempo ouviu o coração bater pesado, cansado... Que lindeza de transformação compartilhei neste dia com você. Deitada na esteira, ao lado da minha filha, viramos sol, vento, nuvem, barco à vela. Chorei de emoção pela linda travessia que começou bem diante de mim, entre xícaras de cappuccino, caixas de lenço e almofadas macias.
Que Deus abençoe a sua caminhada, querida professora de ioga. E que nessa beirinha de Ano Novo a sua história possa inspirar muita gente a acreditar na força que um sonho tem quando precisa acontecer.
Na verdade, não tem muito mistério, aprendi com você. A gente só precisa respirar, aquietar a mente e ouvir de que jeito o coração anda batendo.

domingo, 20 de outubro de 2013

Sonho foi feito pra realizar


E aí você decide pegar a família, juntar uma turma animada de amigos e fazer uma visitinha pro Pateta. Acorda a criança que foi um dia, enche os olhos de brilho e vai brincar de realizar sonhos. Bingo, Mr. Disney. "Where dreams come true", slogan mais preciso não poderia. Perfect.
Não importa se o seu sonho é ver a Pequena Sereia virar princesa, ou a fera virar príncipe, ou a montanha-russa virar você de cabeça pra baixo ao som de uma guitarra alucinante do Aerosmith.
Filas sempre cheias. Tempo de espera de até duas horas dependendo do brinquedo e as pessoas esperando sem reclamar, tudo vale a pena quando o sonho não é pequeno. Duas horas de expectativa para viver em poucos minutos a emoção de voar com o Harry Potter, sobrevoar a Califórnia de asa-delta, subir pelas paredes com Homem Aranha, despencar de um elevador em Hollywood e sentir o coração pular pra fora. ("Tiraram a minha alma lá", foi o comentário da minha filha.) A boa notícia é que depois do susto e da adrenalina tem sempre uma plaquinha luminosa com a palavra "Exit". Yes, we can. Fica tranquilo que tem sempre uma saída, o pânico sempre chega ao fim. Já ouviu a expressão "Relaxa, vai dar tudo certo."? Vai. Para os menos corajosos o sistema nervoso simpático arruma uma confusão danada com o pára-simpático, os neurônios quase viram paçoca mas sim, yeah: como diria Sabino, "no final dá certo. Se não deu - uouuuuuuuuuuuul - "é porque ainda não chegou no final." The end.
À noite, fogos de artifício só para reforçar onde estamos: mundo encantado do ratinho mais simpático do mundo, Terra do Nunca e também do sempre, "where dreams come true", Feliz Ano Novo antecipado. E aí eu me pego pensando que - com todo respeito ao Mr. Disney, pra quem eu tiro o chapéu um milhão de vezes - a gente pode carregar essa frase aonde for, com ou sem castelo, com ou sem Sininho. Brasil, China, Austrália, Japão, escolha o seu destino.
Falo dos sonhos do dia-a-dia adormecidos no travesseiro e colocados em prática no dia seguinte, basta um toque do despertador. Sonhos que demoram mais de duas horas na fila e dão um trabalhão para realizar, mas que nascem inteiros, bonitos de se ver, lindos de viver. Casar com a mulher da sua vida. Ter miniaturas suas correndo pela casa. Viver a liberdade de rodar o mundo sem rumo nem prumo nem hora pra chegar. Virar trapezista de circo. Escrever um livro. Tocar violino. Descobrir a cura do câncer. Encontrar sua identidade. Formar um filho. Abraçar cada segundo da profissão da sua vida. Amar de verdade, esta é a magia.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ao trabalho

Chega de banho. Você vai acabar derretendo desse jeito.
Arregaçar as mangas. Rasgar o verbo. Desentalar.
Chorar se preciso for.
Enfrentar o batente, a labuta, a dor de dente.
Encarar os problemas de frente.
Ninguém te falou que seria fácil.
Viver não é conto de fadas,
não é matematicamente simples assim.
Dorme. Acorda. Boa noite, bom dia.
Ginástica física, mental, emocional.
Corre daqui, peleja dali.
E assim a gente vai transformando
pedras no caminho em bolhas de sabão.
Sem tirar o pé no chão,
mas com possibilidade de alcançar a lua.
Por que não?
Aceita os convites que a vida te faz.
Faz careta pro bicho-papão.
Até morrer de rir. Até descobrir o quanto faz bem sorrir.
Antes de virar abóbora,
toda Cinderela tem seus minutos de sonho.
Se você acredita na eternidade,
tem um punhado de realização pela frente.
Bora, o despertador já tocou.
O sol vai continuar nascendo todo dia,
quer você acorde ou não.
Acorda. Espreguiça, estica a coluna,
beija a alma e vai abraçar esse montão de vida
que te espera lá fora.
Mãos à obra.