Mostrando postagens com marcador vida.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vida.. Mostrar todas as postagens

domingo, 20 de outubro de 2013

Sonho foi feito pra realizar


E aí você decide pegar a família, juntar uma turma animada de amigos e fazer uma visitinha pro Pateta. Acorda a criança que foi um dia, enche os olhos de brilho e vai brincar de realizar sonhos. Bingo, Mr. Disney. "Where dreams come true", slogan mais preciso não poderia. Perfect.
Não importa se o seu sonho é ver a Pequena Sereia virar princesa, ou a fera virar príncipe, ou a montanha-russa virar você de cabeça pra baixo ao som de uma guitarra alucinante do Aerosmith.
Filas sempre cheias. Tempo de espera de até duas horas dependendo do brinquedo e as pessoas esperando sem reclamar, tudo vale a pena quando o sonho não é pequeno. Duas horas de expectativa para viver em poucos minutos a emoção de voar com o Harry Potter, sobrevoar a Califórnia de asa-delta, subir pelas paredes com Homem Aranha, despencar de um elevador em Hollywood e sentir o coração pular pra fora. ("Tiraram a minha alma lá", foi o comentário da minha filha.) A boa notícia é que depois do susto e da adrenalina tem sempre uma plaquinha luminosa com a palavra "Exit". Yes, we can. Fica tranquilo que tem sempre uma saída, o pânico sempre chega ao fim. Já ouviu a expressão "Relaxa, vai dar tudo certo."? Vai. Para os menos corajosos o sistema nervoso simpático arruma uma confusão danada com o pára-simpático, os neurônios quase viram paçoca mas sim, yeah: como diria Sabino, "no final dá certo. Se não deu - uouuuuuuuuuuuul - "é porque ainda não chegou no final." The end.
À noite, fogos de artifício só para reforçar onde estamos: mundo encantado do ratinho mais simpático do mundo, Terra do Nunca e também do sempre, "where dreams come true", Feliz Ano Novo antecipado. E aí eu me pego pensando que - com todo respeito ao Mr. Disney, pra quem eu tiro o chapéu um milhão de vezes - a gente pode carregar essa frase aonde for, com ou sem castelo, com ou sem Sininho. Brasil, China, Austrália, Japão, escolha o seu destino.
Falo dos sonhos do dia-a-dia adormecidos no travesseiro e colocados em prática no dia seguinte, basta um toque do despertador. Sonhos que demoram mais de duas horas na fila e dão um trabalhão para realizar, mas que nascem inteiros, bonitos de se ver, lindos de viver. Casar com a mulher da sua vida. Ter miniaturas suas correndo pela casa. Viver a liberdade de rodar o mundo sem rumo nem prumo nem hora pra chegar. Virar trapezista de circo. Escrever um livro. Tocar violino. Descobrir a cura do câncer. Encontrar sua identidade. Formar um filho. Abraçar cada segundo da profissão da sua vida. Amar de verdade, esta é a magia.

domingo, 8 de setembro de 2013

Prosa ruim


Coisa esquisita essa história de morrer. Como se não bastasse o susto, o luto, o vazio, a indescritível dor da perda, ainda há os estranhos e doídos pormenores. (Ou seriam “pormaiores”?)
De uns tempos pra cá, resolvi olhar para todos eles de frente.
Haja coragem. Haja desembaraço para tocar em um assunto tão intocável. Prosa ruim, não havia título mais apropriado.
Todo mundo vai morrer um dia, eu sei, mas é como se o tema não nos pertencesse. Planejamos viagens, casa na praia, festas de aniversário, buquê de casamento. Reforma do apartamento, mudança de profissão, carro novo na garagem. Sim, sabemos viver. Nossa listinha mental inclui vasos de flor, vinhos na adega, orquestras sinfônicas, enxoval do bebê. Ligamos a TV e o break comercial nos move (ou paralisa) com perfumes, bonecas, chinelos, panelas, colchões, lugares para se descansar em paz. E antes que a sua paz vá embora com bucólicas imagens de gramados verdejantes e slogans idílicos, você muda rapidamente de canal. Da morte à vida em um segundo. Muito mais fácil tomar uma cerveja gelada, suspirar por aquele vestido vermelho, ir com a família pra Disney.
Pois ultimamente ando exercitando essa coisa difícil que é pensar na morte. (No lado prático da morte.) Vão-se os pais dos amigos, os velórios nos atravessam a rotina com seus rituais, fica a constatação dura de que um dia é você que vai passar por isso.
Penso no meu pai e na minha mãe, embasamento mais lindo da minha existência, e sofro por antecipação. Se eu pudesse, eles viveriam duzentos anos. Não posso. Choro.
Assisto à propaganda bucólica e me vejo alvo de seu apelo. Pelo amor de Deus, quando eles se forem quero apenas chorar. Muito. Chorar, rezar, pedir, lembrar, homenagear, fazer-me encanto no meu sagrado canto de despedida. Não quero saber de providenciar nada: flores, jazigo, velório. Não terei cabeça, nem quero ter. Apenas coração pulsando, cabendo tudo o que é dor, memória, saudade, colo, uma existência inteira que se foi apesar de nunca ir.
E foi dessa dolorosa antecipação que chamei meus pais para uma conversa. “Prosa ruim”, fui logo avisando. “Prosa necessária, saudável, minha filha. Faz parte da vida pensar na morte”, respondeu com serenidade minha mãe.
E foi assim que tomamos coragem para ligar para os cemitérios, fazer tomada de preços, esclarecer dúvidas sobre o concreto e inevitável morrer. De uma maneira muito racional, recusamos a violência que é ser pego de surpresa numa hora dessas.
Tenho um cunhado que mal recebeu a notícia de que o coração da mãe parou de bater, foi “gentilmente acolhido” por um agente funerário ainda no corredor do hospital, cobrando preços exorbitantes pela despedida. É dessa triste cena permeada de “marketing emocional” que não quero jamais ser protagonista.
Tenho um amigo, por outro lado, que sempre que vai almoçar na casa dos pais é levado até um canto da sala: “Meu filho, se acontecer alguma coisa tá tudo aqui, nessa gaveta: papelada em dia, comprovantes, o telefone para tomar as providências. Tudo certo.”
Quando inaugurei a “prosa ruim” meu pai não rendeu muito a conversa. “O que você resolver está bom, minha filha. Pode ir olhando e me repasse as informações.” Minha mãe, prática feito ela só, foi logo dando força pro assunto: “Que bom podermos conversar sobre isso, florzinha. Muito saudável a gente cuidar da morte enquanto vive. E, enquanto vive, fazer isso da melhor maneira possível, desfrutando dos momentos de felicidade, aproveitando tudo o que a vida tem a nos oferecer.”
E lá foi ela resolver o assunto, querendo a área do cemitério mais bonita, bem perto das suas raízes. Na sua caderneta de anotações, uma página bem pitoresca vinha com a listinha:
• Presente casamento Luiz.
• Roteiro Portugal.
• Meia anti-derrapante.
• Cemitério.
Outro dia me deu a notícia toda feliz, bem-resolvida: “Filha, comprei meu lote na Pampulha! Quando chegar a hora, o telefone vai estar aqui ó, nesse ímã de geladeira.“
E o que era “prosa ruim” virou crise de riso, abraço gostoso, listinha quitada no nosso jeito bem-humorado de resolver as coisas práticas, imensamente delicadas, sem fazer disso tabu. Desopilamos o fígado para lembrar o quanto ele e os outros órgãos estão tinindo, de bem com a vida, até que um dia a morte diga o contrário.
Enquanto houver vida pra viver, que a gente ainda possa curtir muito as boas prosas da vida, fazendo de cada epitáfio um lindo poema.