Mostrando postagens com marcador Mulher. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mulher. Mostrar todas as postagens

domingo, 9 de junho de 2013

Ode ao Dia dos Namorados


A cena é linda, eu diria perfeita.
O namorado pára o carro em uma rua tranquila,
venda os olhos da namorada
e coloca uma música que fala de amor.
De repente a rua é tomada por casais de namorados
passeando de mãos dadas, sorrindo enamorados
entre beijos, abraços, flores e balões.
(Armação criativamente inventada,
famoso flashmob dos dias de hoje.)
Os olhos outrora vendados não acreditam no que vêem.
Choram de emoção, pupila dilata, fala falta.
O clímax chega na forma de uma caixinha preta
de veludo que delicadamente se abre,
mostrando duas alianças de ouro.
- Quer se casar comigo?
(...)
- NÃO.
(...)
Não?!?
A cena é inesperada, eu diria imperfeita.
Imperfeita como a vida é, afinal.
Plena de encontros e desencontros,
amores correspondidos e doídos,
porções inteiras de sim e não.
É com a recusa de um pedido do casamento
em pleno 12 de junho que começa o filme
"Odeio o Dia dos Namorados".
O nome é curioso. Chama atenção
pelo forte antagonismo do verbo utilizado
em relação a uma data tão cheia de amor pra dar.
Aí você torce o nariz. Esvazia-se de toda
e qualquer pretensão já prevendo
uma tola comédia romântica cheia de clichês.
Lêdo engano.
"Odeio o Dia dos Namorados" é leve,
engraçado, ficcional e também muito real.
A mulher que não aceitou se casar
foi um dia a menina que botava fones de ouvido
para não ouvir a briga dos pais.
A publicitária viciada em trabalho
viveu um dia abstinência de amor
nas suas decepções de adolescente.
Um acidente de carro pára tudo, movimenta tudo,
dá a ela a oportunidade de voltar no tempo.
Pausa providencial, Divina Providência
dando uma explicação a tudo.
Depois de tanta "viagem", nasce o slogan
do bombom Sonho de Valsa: "Alimente o seu amor".
Como ex-redatora publicitária, adorei.
Era o slogan que eu gostaria de ter criado.
Como psicóloga, ouvinte frequente das trincas
que muitas vezes esfarelam as relações afetivas, validei.
O amor - a despeito de todos os traumas,
vazios e antagonismos - tem fome e sede,
necessidade constante de cuidado e nutrição
para não correr risco de inanição.
Deve ser por isso que os restaurantes
fazem fila no Dia dos Namorados.
Oficialmente os casais ficam ávidos
de rua, lua, vinho, ninho,
famintos que estão de amor.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Sexo frágil

Você não deve estar entendendo nada.
O que este título está fazendo aqui, depois do lindo tributo às mulheres prestado no post anterior?
Que história é essa de sexo frágil, Renata?!
(...)
É a história - várias histórias - que tenho visto
e ouvido sobre algumas mulheres.
A cada história uma personagem, uma fantasia,
um quê de forte fragilidade.
Essas mulheres há muito largaram o tanque e o fogão, queimaram o sutiã em praça pública,
se desvirginaram do tabu de casar virgem.
Não se trata aqui de direitos iguais, salários menores, revoluções feministas ou outros pormenores.
Trata-se de pensar na forma como essas mulheres andam lidando com os seus afetos, suas buscas, idiossincrasias mais nuas.
Agora elas não queimam mais sutiã em praça pública.
Segundo testemunhas "cardio-oculares",
elas queimam o filme, esturricam
o pouco de amor próprio que lhes resta,
desfazem-se em mil pedaços.
Esvaziadas de autoestima, movidas pelo desespero e achando que podem tudo, essas mulheres escancaram
sua fragilidade velada. Seu sexo frágil.
Tenho visto alguns homens incomodados
com essas mulheres. Tenho visto algumas mulheres
com vergonha dessas mulheres.
Andam dizendo que elas se jogam, se desmerecem,
se deitam na bandeja pro garçom levar.
Não sabem, não conhecem,
não colocam-se no seu lugar.
"Será que não sabem?", entoam os advogados do diabo.
Segundo as más línguas, essas mulheres usam disfarce de coitadinha, impregnadas da própria carência,
saltos transformados em rasteirinha. Rasa inocência.
Línguas mais ferinas dizem que elas se fantasiam
de lobinhas bobinhas em pele de cordeiro,
maquiagem borrada, assustadoramente
enganando a si mesmas.
Línguas amigas interrogam a quantas anda
sua autoestima, sua inteireza, seu espelho.
Retomando Simone de Beauvoir,
"não se nasce mulher, torna-se mulher".
E quando me perguntam no que estas mulheres
estão se tornando, ofereço um refresco de maracujá,
rede na varanda e convite pra filosofar.
Cessar fogo. Trégua de pedras.
Olhos se abrindo em colo pra compreensão chegar, gentilmente se aninhar.
Rompendo com todos os rótulos e estereótipos,
resta o grito doído da mulher que pede arrego,
rumo, paradeiro, colete salva-vidas, prumo.
O que lhe falta?
Bússola, luz, caminho, porto seguro.
Muitas vezes não é a mulher que grita.
É a criança que chora. Sapateia. Faz pirraça.
Joga as tranças do alto da torre,
se agarrando num fio desesperado de esperança,
ensandecida para chegar em algum lugar.
Que lugar, Rapunzel?
Perdida nos seus descaminhos, absorta
em sua greve de sono, precisa fechar os olhos,
apagar a luz, programar o despertador
para enfim acordar mulher.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Mulheres

"Não se nasce mulher, torna-se mulher."
É de Simone de Beauvoir a célebre frase que tantas mulheres - feministas ou não, famosas ou não, carregam na alma e no olhar.
Dê a estas mulheres um espelho e ali estará toda a sua poesia em movimento - olhos, cílios, boca, seios, jogo de pernas, salto alto, cintura. (Muito jogo de cintura.)
Dê a estas mulheres um divã e ali estará sua vida inteira em paralisia ou movimento - suas escolhas, seus medos, vontades, desejos, delírios, alucinações mais cheias de lucidez.
Sua menina já foi dormir faz tempo. Virou Bela Adormecida esquecida num castelo no meio da floresta. Esquecida pelo príncipe, que lembrou que ele mesmo não existe. Carregada no colo pela mulher, embalada pelas lembranças do que um dia foi. Foi, já não é.
Dê a estas mulheres um homem de verdade e ali estará sua alma, sua carne, seu corpo, sua mente.
Mente quem diz que já se nasce mulher. Nasce a menininha linda, dengo da tia, xodó da vovó. Torna-se mulher com o tornar dos dias, noites, anos a fio. Nasce a primeira espinha, o primeiro amor, a primeira dor. Torna-se mulher quem se apropria de si, com todos os arranhões que a vida traz. Torna-se mulher quem diz tudo com o olhar, sem códigos ou legendas. Quem vai pra cama sem dormir com os anjos. Quem toma à frente sem fazer revolução. Quem atravessa o deserto sem pedir colo. Quem faz dos rascunhos poesia. Quem faz de um perfume sua autoria.
Torna-se mulher quem sabe amar por inteiro
sem nunca ter feito um curso de amor no exterior.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Listinha da mulher pós-moderna

Supermercado, sacolão, arroz com feijão.
Fazer a unha, o álbum de fotos, a digestão.
Brincar com as crianças.
Jogo da memória. (Memória?)
Exame de sangue.
Sangrar o tempo.
Ioga. Judô. Vale-Tudo. Tudo?
Jogar fora os controles-remoto.
Levar os edredons pra lavar.
Perfumar a cama.
Ensaiar que ama.
Limpeza de pele.
Curso de corte e costura. Jura?
O cartucho acabou. A impressora estragou.
Reunião de condomínio.
(Dá pra ser virtual? Não me leve a mal.)
Chora. Ri. Medita.
Pedido de casamento. Acredita?
Bate ponto. Conta ponto.
Leva o filho pra tomar ponto.
!!!
Reunião com a diretoria.
Chá das cinco. Balada das dez.
Borrar a maquiagem na terapia.
Ser mulher, mãe, amante, filha.
Promoção de pilha.
________________________________
(Aumente a lista.)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Encontro marcado

Tomou um banho de horas.
Shampoo, condicionador, esfoliante,
óleo de maracujá para acalmar o mundo
que costuma carregar nas costas.
Pintou as unhas, passou perfume, hidratou as rugas,
passou a perna no tempo.
Batom vermelho, sombra nude, luz que sempre foi sua.
Há um bom tempo não se sentia assim.
Descompromissadamente inteira, dona de si, faceira.
Completamente face to face,
nenhum vestígio seu no facebook.
Olhou o relógio, subiu no salto, entrou no táxi.
- Restaurante Outono, por favor.
Leve aumento da frequência cardíaca.
Última retocada no batom.
Mesa reservada com o seu nome, vela acesa.
Atraso de vinte minutos.
Suspiro sutil de quem se preparou
há anos para este encontro.
Sentou-se tranquila, cruzou as pernas,
chamou o garçon, pediu um vinho.
Fez da taça espelho, sorriu por dentro,
brindou sozinha a alegria.
- Espera alguém?, interrompeu o garçon.
Ao movimento negativo da cabeça
sobreveio o movimento leve da alma, do corpo,
da emoção de quem um dia finalmente se encontrou.
Solitariamente bem-acompanhada.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Tudo se transforma


Quem diria.
O céu que amanheceu cinzento ganhou cor ao meio-dia.
Céu de brigadeiro.
A chuva que insistia em cair mudou de ideia e de rumo.
Deu lugar ao sol, solamente.
O frio foi embora, levado
por uma corrente marítima talvez.
Levado de levadeza.
Fez calor.
Fez falta, festa e sim dentro de mim.
Chapeuzinho Vermelho ficou lá longe, distante,
acenando para a mulher já quase a correr com os lobos.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Confissão

Um dia ela me confessou, muito timidamente:
- Às vezes eu penso em mudar de sexo. Deixar de ser mulher. (...)
Mas nada de ser homem também. Esquece.
Meu sonho de consumo é me transformar em máquina. De preferência uma bem grande, linda, de plasma ou LCD. (Plasma não, de plasma basta eu tentando inutilmente aparecer.)
O que eu queria mesmo era me banhar de todos os brilhos, cores, amores. Imagens em movimento, tão aceleradas quanto os filmes do 007. É isso. A partir de hoje meu nome é "Bond. James Bond".
Quero ter voz. (E que a minha voz seja ouvida no talo.)Quero ver ele não olhar pra mim agora. Cheia de astúcia, sedução, armas de última geração.
"Bond. James Bond."
E quando ele cansar desse filme é só me apontar o controle. Gol de placa, golaço, grito de adrenalina no último minuto do segundo tempo.
É zero a zero e ele insiste em olhar pra mim. Vidrado, louco, completamente apaixonado.
Se não capotar no sofá depois disso, é certo que vai pra cama comigo.
Muito prazer, eu sou a tal.
Sem concorrência. Sensacional. Inteiramente digital.