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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Motivo nenhum

Não era seu aniversário. Nenhuma data especial, nenhum evento extraordinário no calendário.
Nada importante a comemorar, a não ser a própria vida.
SUA vida, inteira e simplesmente.
Passou numa floricultura, saiu perfumando a rua.
Passou no salão, marcou um spa de pé.
Passou a mão na bolsa, foi namorar vitrine.
Lingerie, boulangerie, sortie.
Saiu de fininho, à francesa,
de um relacionamento há algum tempo engessado.
Entrou na delicatessen e sorveu o perfume dos vinhos. Delicadamente.
Degustou queijos, cerejas, licores.
Pôs no carrinho. Pôs-se a caminho.
Ligou o carro, seguiu em frente
com "As quatro estações" de Vivaldi.
Tocou o celular, não ouviu. Nona chamada não atendida
do moço que deixara a relação de pé quebrado,
com vários ligamentos rompidos. Doídos.
Levada pelo som vibrante dos violinos, seguiu em frente,
sentindo-se pela primeira vez regente da sua vida.
Chegou em casa exausta de alegria.
Tomou um banho de espuma, espalhou velas pela sala.
Risotinho esperando na panela,
vinho resfriando na adega.
Profusão de aromas, cheiros, temperos.
Combinações as mais variadas: cereja com queijo,
funghi com páprica, chocolate com pimenta.
No banheiro ainda tomado pelo vapor,
o celular registrava a décima quinta ligação perdida.
Toque de campainha. Vizinho do sexto andar,
como quem não queria nada, querendo tudo,
xícara vazia na mão pedindo
um cadinho de arroz arbóreo.
Trocou a xícara por uma taça de vinho.
Casa inteira perfumada de risoto a quatro mãos.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Encontro marcado

Tomou um banho de horas.
Shampoo, condicionador, esfoliante,
óleo de maracujá para acalmar o mundo
que costuma carregar nas costas.
Pintou as unhas, passou perfume, hidratou as rugas,
passou a perna no tempo.
Batom vermelho, sombra nude, luz que sempre foi sua.
Há um bom tempo não se sentia assim.
Descompromissadamente inteira, dona de si, faceira.
Completamente face to face,
nenhum vestígio seu no facebook.
Olhou o relógio, subiu no salto, entrou no táxi.
- Restaurante Outono, por favor.
Leve aumento da frequência cardíaca.
Última retocada no batom.
Mesa reservada com o seu nome, vela acesa.
Atraso de vinte minutos.
Suspiro sutil de quem se preparou
há anos para este encontro.
Sentou-se tranquila, cruzou as pernas,
chamou o garçon, pediu um vinho.
Fez da taça espelho, sorriu por dentro,
brindou sozinha a alegria.
- Espera alguém?, interrompeu o garçon.
Ao movimento negativo da cabeça
sobreveio o movimento leve da alma, do corpo,
da emoção de quem um dia finalmente se encontrou.
Solitariamente bem-acompanhada.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Ilhada

Inventou segredos.
Ensaiou mil beijos.
Deu férias pro azar.
Foi em busca do mar.
Em busca de amar.
Primeiro a si mesma, de corpo inteiro,
de alma pronta e lavada.
Depois para quem merecesse beber em fonte
tão abundante de amor.
Abundância, é o que nos diz o mar.
Eternidade, é o que responde o amor.
Sem tirar a roupa, se desnudou por inteiro.
Mergulhou em si mesma como veio ao mundo.
Virou ilha cercada de paz.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Feridas

Ontem eu dei uma entrevista para o MGTV sobre um tema bastante comum e ao mesmo tempo complexo: "pessoas negativas, destrutivas, que puxam o outro pra baixo ". (http://g1.globo.com/videos/minas-gerais/v/especialista-ensina-como-lidar-com-criticas-negativas/1583961/#/todos%20os%20v%C3%ADdeos/page/1)
Como o assunto dá pano pra manga e o tempo é sempre contadinho no Programa, resolvi estender um pouco do tema por aqui, explorando especialmente o lado de quem sofre com o que vem dessas pessoas tão esvaziadas de auto-estima.
Que elas não percam jamais a lucidez de enxergar que o problema não é com elas, mas com aquele que pisa, humilha, puxa pra baixo. O foco não é a vítima, mas o algoz. Ele tem dificuldades a resolver. Falta a ele uma boa auto-estima, assim como também faltam habilidades emocionais, interpessoais, muitas vezes profissionais. É o professor que diminui o aluno, o chefe que destrói o funcionário, a patroa que acaba com a raça da empregada. Por mais paradoxal que pareça, o conflito também pode surgir entre marido e mulher, pai e filho, parentes que acabam virando serpentes. Pessoas assim buscam compensar a baixa auto-estima com poder, na ilusão de se fortalecer com a fragilidade do outro.
Mera ilusão, sinto lhe dizer. Mas aí vão duas boas notícias:
1) o que é puxado pra baixo pode perfeitamente, com a segurança e auto-estima que tem, colocar limite e dar a volta por cima.
2) o que puxa pra baixo pode reconhecer que a fragilidade na verdade é sua, e buscar mudar para sobreviver emocionalmente.
Bem-vindo à vida, cheia de desafios e oportunidades pra gente crescer. Mesmo que às custas de muito tombo no chão.