quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Farofa, monstros e rock'roll


Experimente desligar a TV, tirar a gravata, vestir uma fantasia de princesa, levar a sério uma criança. Pronto. Sua "adulteza" já virou infância.
De perolice em perolice o mundo vai ficando mais redondo, colorido, mais cheio de graça e encanto.

- Mamãe, por que que dicionário chama dicionário? Devia se chamar livro da sabedoria.
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- Mãe, eu já falei que não gosto de pimentão.
- Ô, filha, pimentão é tão gostoso. E olha só como faz a farofa ficar mais bonita.
- Eu adoro farofa, mas sem pimentão.
- Tadinho do pimentão, Bella. Ele vai ver todo mundo ir pra festa da barriga - o arroz, o feijão, a carne, o tomate... Só ele vai ficar de fora?
- Tadinho nada, mãe. Pimentão não é gente!...
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- Mãe, sabia que tem uma lenda sobre as mães que ficam muito bravas? Elas viram monstro.
- É mesmo, Bella? Onde você aprendeu essa lenda?
- Na escola, ué.
- Você acha que eu sou muito brava, filha?
- Não... E é melhor você não ficar, viu?
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- Bella, o telefone tá tocando!
- Ah, pai, tô com preguiça de atender...
- Deve ser o seu avô. Eu, se tivesse um avô ia atender. Mas o meu tá lá no céu, e lá não tem telefone não...
- Tem sim!
- Tem?!
- Tem, a gente liga pelo coração!
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- Mãe, às vezes eu não consigo parar de pensar! Minha cabeça parece uma banda de rock. (!)

terça-feira, 23 de julho de 2013

AMORversário


Então você nasceu. Eu ainda não era desse mundo, mas com certeza participei com emoção do seu "bota-fora", já deixando um encontro marcado para anos depois. Cercado de anjos e estrelas você foi notícia linda numa noite de 23 de julho. Foi rapa do tacho numa família abençoada de quatro filhas, bênção ainda maior se viesse um menino. Veio. Você, cheio de luz e encantamento, posso apostar que chegou ao mundo com um riso gostoso, ao invés do tradicional choro. Seu nascimento fez tocar uma orquestra inteira dentro do seu pai e da sua mãe, sinfonia de alegria.
Hoje tem bolo de chocolate, velas acesas, risoto de camarão, mousse de maracujá, brigadeiro com flor de sal, mar cheio das melhores energias. Hoje tem riso, cantoria, torcida, balões em preto e branco, colorido melhor não haveria. Hoje é como se o Galo já estivesse carregando a taça.
Mais que aniversário, você faz diferença na vida da gente. Faz da felicidade palavra nada abstrata. Faz da sua alegria meu presente. Seu nascimento marcou, muito mais que o calendário, meu mundo, minha escrita, minha rima, toda uma existência.

domingo, 14 de julho de 2013

Torcida


Não entendo muito de futebol. A única vez que fui ao campo foi para fazer um trabalho de antropologia da faculdade, com um bloquinho na mão, de costas pro jogo, observando o comportamento da torcida.
Tenho em casa motivos de sobra para ser perita no assunto: um marido apaixonado pelo Galo, um filho que chora de emoção quando ele faz gol, uma filha que ficou "amiga" do Bernard.
Meu avô, se visse isso, ia estribuchar: antes de se tornar médico pneumologista, antitabagista ao extremo, foi artilheiro do Palestra Itália, atual Cruzeiro.
Mas a vida é assim mesmo. Para não dar espaço para a concorrência, o Dé mandou fazer um quadro assim que o Léo nasceu, e já na maternidade todo mundo lia: "Papai, obrigado por eu ter nascido atleticano." (Desculpa, vô, mas tive que aderir à torcida.)
Não entendo muito de futebol mas trabalho apaixonadamente com as emoções. Perdas e ganhos, alegria e tristeza, medo e coragem, derrota, vitória e tantas outras dicotomias passeiam diariamente no meu consultório. Na estante, potes de vidro carregam pedras coloridas, cada um com um rótulo: AMOR, ALEGRIA, PAZ, ESPERANÇA. Para este último, cheio de pedras verdes, costumo apontar o dedo quando vejo à minha frente olhos vazios de crença, esvaziados de esperança.
Sem muito entender de pênaltis, faltas e arbitragem, no último jogo histórico do Galo contra o Newell's Old Boys fui tomada pela emoção que tomou conta do estádio. Um torcedor atirou ao campo um terço que o goleiro Victor ajeitou no cantinho do gol. Um técnico aflito carregava Nossa Senhora estampada no peito, sem saber que era Ela que o carregava. A energia caiu, fazendo elevar a vibração da torcida com o refrão mais lindo e comovente de todas as torcidas: "Eu acredito! Eu acredito! Eu acredito!"
E dessa energia fez-se a luz. Da luz fez-se a emoção da vitória. Da vitória fez-se a confirmação do tanto que é preciso acreditar na força que as coisas têm quando precisam acontecer.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Olhos que falam

Conheci Tia Vera na piscina.
Paparicadeira feito ela só, virou logo tia do Léo, entusiasmada em ver o pequeno (na época com três anos) dar seus primeiros pulos e braçadas. Enquanto ele aprendia a nadar, a gente aprendia a ter mais qualidade de vida na aula de hidroginástica. Um perfeito "dois em um" para mães que querem cuidar dos filhos sem descuidar de si, driblando o relógio.
Valeu a torcida, Tia Vera. Hoje o pequeno já não é mais tão pequeno, treina na equipe e se alegra com cada medalha.
Sigo firme com ela na hidro, jogando água pra cima e recarregando as baterias.
Faladeira feito ela só, de um coração do tamanho de um trem, Tia Vera faz "ginástica intercomunicacional": fala disso, daquilo, daquilo outro. O professor muda a perna e ela ainda está no braço, contando e recontando causos, histórias, o capítulo da novela e o drama da empregada. Dá notícia de tudo, de todos, com uma alegria contagiante e um sol brilhando dentro dela.
Quando Tia Vera falta, a piscina fica vazia e o tempo nublado. A aula até rende mais, mas fica bem esquisita.
Leitora assídua do blog, outro dia me pediu sem cerimônia:
- Renatinha, faz um post pra mim?
Dia desses ela me deu motivo.
Aprendiz de fotografia, apaixonada por criança, quis treinar uns closes com o Léo e a Bella pra ir montando seu portfólio. Levei minha afilhada junto e nos divertimos na Praça da Liberdade, em meio a brincadeiras de roda, ioiô, esconde-esconde. Pedi ao vendedor de algodão doce sua haste cheia de nuvens coloridas e lá fui eu distribuindo alegria na praça.
Pela primeira vez, vi Tia Vera em silêncio. Cada segundo era um clique, um momento, um sorriso que ela não deixava escapar.
Quando me enviou as fotos, entendi o significado daquele silêncio tão contrastante com a faladeira mulher da piscina.
A Tia Vera da praça mergulhou na emoção de um ofício que faz a alma falar mais alto. A emoção de capturar momentos únicos, preciosos, que não voltam mais.
Por trás da câmara, Tia Vera em silêncio cantava, orava, catava instantes de vida em movimento.
Para que palavras se os seus olhos diziam tudo?
Música, poema, poesia: isso é o que mais escuto no silêncio que vem dos seus olhos cheios de brilho, Tia Vera.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Cura de quê?

Fico pensando (e esse pensamento dói)
no quanto algumas profissões são exercidas
de forma leviana, negligente, doente.
Profissão é algo sagrado, meu caro.
Tem a ver com ganha-pão, honestidade,
respeito, realização.
Trabalho sério, principalmente
quando se lida com gente.
Principalmente quando se assenta numa mesa
para criar projetos de lei.
Projetos que não são de lego nem credo,
não se montam como se fossem brinquedo.
Projetos de lei, meu caro,
envolvem também projetos de vida.
Pressupõem gente que lê, que pensa,
que sente, que tem personalidade
e opinião própria.
Gente que sofre, que ama,
que se perde e se encontra,
cai e levanta, ri e chora.
Gente que tem sexo e nem por isso
tem um carimbo dizendo
como é que tem que amar.
Com quem é que tem que se deitar.
Gente que recusa projetos de lei
determinando uma cura absurda.
Que cura, meu caro? Que lei?
Por acaso amor mudou de nome?
Virou doença fazer uma escolha,
abraçar uma identidade,
se jogar nos braços da mulher ou homem amado?
Me fale mais sobre isso.
Deixe-me entender onde é que está a patologia.
No meu consultório é que não está.
Não vejo doença nos olhos do homem
que só tem olhos para outro homem.
Não vejo distúrbio na mulher
que sonha com outra mulher.
Não cometo o equívoco absurdo
de querer curá-los, meu caro.
Prezo o gay que se senta à minha frente
como prezo qualquer outro ser humano
que vem falar das suas dores, feridas, amores.
Basta ser filho de Deus para tê-las aos montes.
Se esse blog fosse um divã, meu caro,
Freud certamente lhe diria:
"Seu tempo acabou."

sábado, 15 de junho de 2013

Protesto

Existe uma lei universal de causa e efeito,
simples de entender.
Tudo o que você faz gera uma resposta,
mesmo que muitas vezes silenciosa.
Sua fala, seu rompante, seu abraço ou distância
reverberam longe, já que você não é uma ilha
e absolutamente não está sozinho nesse mundo.
Eu, que aqui escrevo
para desintoxicar meu sistema nervoso
das loucuras e absurdos que vejo por aí,
causo certamente um efeito em você.
A forma negligente, desrespeitosa e doente
como o nosso país vem sendo conduzido
causou, não era estranho de se esperar,
protestos que já são notícia no mundo todo.
O aumento na tarifa de ônibus
e o gasto exorbitante com a Copa
foram apenas a gota d´água.
O copo já estava cheio faz tempo -
derramando corrupção, violência, saúde em coma,
falta básica e essencial de educação.
Os jovens saíram do Facebook e foram às ruas
compartilhar, ao vivo e em cores,
sua revolta e indignação.
Alguns souberam fazer isso, outros não.
Uns fizeram bonito, outros fizeram estrago.
Referindo-me aos primeiros,
como povo brasileiro de um estado democrático,
eles tem - no mínimo - esse direito.
Mas a gota d´água desaguou em gotas de sangue,
senhores governantes.
Sua tropa de choque chocou um país inteiro
com suas bombas de gás lacrimogênio,
tiros de borracha, sprays de pimenta
borrifados até em cachorro.
Voltando à lei universal de causa e efeito,
tivemos aí um efeito devastador.
Desumano. Destruidor.
Temos aí um clássico exemplo
de quando o efeito é absurdamente maior
do que a causa.
Isso não acontece só nas ruas,
mas também nos casamentos,
nas relações afetivas e familiares.
Quando a reação, o castigo, o grito
vem de forma absolutamente desproporcional,
piorando tudo.
Silenciar assim a sua gente, senhores governantes?
O que poderia ser uma corrente pra frente acaba
virando corrente de chumbo voltando pra trás.
Década de 60, para ser mais exata.
Ditadura, tortura, abuso abismal de poder.
De efeito em efeito, vamos fazendo um país.
E um país é feito de gente, só para lembrar.
Gente que acorda cedo pra trabalhar,
gente que faz seu serviço direito,
gente que transforma luto em luta todos os dias.
Gente que oferece flores à tropa de choque,
causando como efeito
um tanto de assombro e esperança,
chamado urgente de paz e mudança.

domingo, 9 de junho de 2013

Ode ao Dia dos Namorados


A cena é linda, eu diria perfeita.
O namorado pára o carro em uma rua tranquila,
venda os olhos da namorada
e coloca uma música que fala de amor.
De repente a rua é tomada por casais de namorados
passeando de mãos dadas, sorrindo enamorados
entre beijos, abraços, flores e balões.
(Armação criativamente inventada,
famoso flashmob dos dias de hoje.)
Os olhos outrora vendados não acreditam no que vêem.
Choram de emoção, pupila dilata, fala falta.
O clímax chega na forma de uma caixinha preta
de veludo que delicadamente se abre,
mostrando duas alianças de ouro.
- Quer se casar comigo?
(...)
- NÃO.
(...)
Não?!?
A cena é inesperada, eu diria imperfeita.
Imperfeita como a vida é, afinal.
Plena de encontros e desencontros,
amores correspondidos e doídos,
porções inteiras de sim e não.
É com a recusa de um pedido do casamento
em pleno 12 de junho que começa o filme
"Odeio o Dia dos Namorados".
O nome é curioso. Chama atenção
pelo forte antagonismo do verbo utilizado
em relação a uma data tão cheia de amor pra dar.
Aí você torce o nariz. Esvazia-se de toda
e qualquer pretensão já prevendo
uma tola comédia romântica cheia de clichês.
Lêdo engano.
"Odeio o Dia dos Namorados" é leve,
engraçado, ficcional e também muito real.
A mulher que não aceitou se casar
foi um dia a menina que botava fones de ouvido
para não ouvir a briga dos pais.
A publicitária viciada em trabalho
viveu um dia abstinência de amor
nas suas decepções de adolescente.
Um acidente de carro pára tudo, movimenta tudo,
dá a ela a oportunidade de voltar no tempo.
Pausa providencial, Divina Providência
dando uma explicação a tudo.
Depois de tanta "viagem", nasce o slogan
do bombom Sonho de Valsa: "Alimente o seu amor".
Como ex-redatora publicitária, adorei.
Era o slogan que eu gostaria de ter criado.
Como psicóloga, ouvinte frequente das trincas
que muitas vezes esfarelam as relações afetivas, validei.
O amor - a despeito de todos os traumas,
vazios e antagonismos - tem fome e sede,
necessidade constante de cuidado e nutrição
para não correr risco de inanição.
Deve ser por isso que os restaurantes
fazem fila no Dia dos Namorados.
Oficialmente os casais ficam ávidos
de rua, lua, vinho, ninho,
famintos que estão de amor.